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Feliz ano novo (bíblico)!

Rabino Uri Lam

De acordo com a Torá deveríamos nos cumprimentar neste Shabat com Shaná Tová, feliz ano novo! Mas, ao invés, vamos nos cumprimentar com apenas “um bom novo mês”. Além da Parashá da semana, leremos um trecho especial sobre o mês de Nissan: “Este mês será para vós o início dos meses, será para vós o primeiro mês do ano.” (Ex. 12) Se refletirmos um pouco, faz todo sentido começar o ano judaico agora. Este é o mês da primavera (em Israel), estação do ano que a natureza renasce. Este é o mês da festa de Pessach, quando saímos como um povo da escravidão do Egito. Interessante observar que os judeus da seita de Qumran (dos manuscritos do Mar Morto) celebravam o ano novo judaico em Nissan! Por que o início do ano foi transferido para o mês do outono? Como nossos sábios tiveram a coragem de fazer uma mudança contrária à Torá?

Ninguém sabe ao certo. Em algum momento após o período bíblico e antes da Mishná, as festividades ligadas à colheita de outono se tornaram mais importantes. Diversos povos em Israel e na Babilônia começavam o ano no outono. Sua lua cheia (Sucot) era muito celebrada com cultos, festas e orgias. Alguns acreditam que toda a ênfase de Rosh Hashaná e Iom Kipur na autoavaliação e no perdão é uma maneira de controlar os excessos das celebrações da lua cheia do outono.

A Mishná, o começo da Torá oral, resolve o dilema afirmando que existem mais de um ano novo judaico. Os sábios da Guemará desejavam associar o início do ano ao relato da criação. Como o jardim do Éden estava repleto de frutos, concluíram que era outono. Assim, o início de Tishrei tornou-se o ano novo religioso enquanto que o início de Nissan tornou-se o ano novo civil. Parece que nossos sábios também queriam associar ao novo ano religioso um tema universal (autoavaliação e perdão) e não um tema nacional (libertação dos israelitas).

Além desta questão, os sábios realizaram diversas outras mudanças no calendário para que este não atrapalhasse a prática religiosa. Um exemplo: um dia é acrescentado ou retirado ao ano para que Iom Kipur não caia na sexta-feira ou no domingo, já que dois dias de descanso completo dificultariam a observância apropriada da festa. Resultado: em certos anos celebramos Iom Kipur um dia antes ou depois do previsto na Torá!

Muitas pessoas alegam que foi graças à manutenção da tradição que o judaísmo sobreviveu. A história e os textos judaicos mostram o contrário: a coragem de mudar fortaleceu a prática do judaísmo e contribuiu para a sobrevivência judaica. O judaísmo dos tradicionais membros da seita de Qumran desapareceu. O judaísmo rabínico, com a sua revolucionária Torá Oral, tornou-se vitorioso.

Que nossos sábios do Talmud sejam a inspiração para que a nossa geração possa implementar mudanças importantes que precisamos tomar em nossas vidas e em nossa sinagoga.